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Cláudia, arrastada. Rafael Braga, preso. Assassinos de Luana Barbosa, soltos. 111 tiros em cinco jovens comemorando o primeiro salário. Outros cinco, agentes culturais, executados em Maricá. Maria Eduarda achada pela bala aos 13; Victor Gabriel, aos 3; João Pedro, aos 4. DG, assassinado. Amarildo, eliminado. Um policial morto a cada 57 horas no Rio. Uma mulher morta a cada duas horas no Brasil. Um jovem negro, a cada 23 minutos...

Há 30 dias executaram Marielle e, até agora, nenhum culpado foi apontado. A quinta vereadora mais votada da segunda maior cidade do país foi assassinada com quatro tiros no rosto; juntamente com ela, seu motorista Anderson Gomes com três tiros nas costas e, um mês depois, nenhuma resposta. "Quantos mais precisarão morrer para que essa guerra acabe?", questionou no dia anterior. Mãe, mulher, negra, lésbica, periférica, ativista... sua vida, sem dúvida, tão importante quanto qualquer uma. Sua morte, no entanto, muito mais simbólica do que tantas outras.

Para a Democracia, o extermínio de uma representante escolhida com expressão pelo povo, que lutava pelos menos favorecidos, pelos Direitos Humanos (HUMANOS ok? De todos!) e, acima de tudo, denunciava a violência policial em um cenário dominado por milícias, é uma afronta. Uma demonstração clara de que quem está no poder se sente acima de qualquer limite. O menosprezo pela Justiça, pelos crimes citados no início e tantos outros que ocorrem sistematicamente.

Para a população negra e/ou periférica, sobretudo, para as mulheres, a morte de Marielle foi um recado. "Não adianta que vocês não vão conseguir. Vocês não vão estudar. Vocês não vão ascender. Vocês não serão ouvidos. E, se porventura, forem, nós os calaremos!". Li muitas pessoas, tão indignadas quanto eu com o crime, dizendo que não era uma questão de raça e/ou gênero. Mas quantas notícias tivemos de homens brancos metralhados, em via pública, sem tentativa de disfarce, por lutarem pelo que acreditam? Justamente por ser mulher e negra, pensaram que seria apenas mais um corpo para as estatísticas. "O inimigo dá risada da sua vala no sofá da sala", como deram a letra os Racionais. Não imaginavam que haveria a repercussão, tampouco, a cobrança por parte da sociedade.

No dia seguinte à sua morte, o escritor Anderson França, fundador da UniCorre (universidade gratuita, que orienta jovens a abrir e gerir o seu próprio negócio) publicou uma postagem que dizia que "quando uma mulher negra empreende, todas as mulheres negras empreendem junto. Quando uma mulher negra morre, todas morrem um pouco também". É real. A sensação foi a de que um pedaço de mim perdeu a vitalidade, o brilho nos olhos. A esperança. E essa foi a imagem que vi no semblante de centenas de pessoas que estiveram presente no primeiro Ato ocorrido no MASP. Nos olhávamos incrédulos, os abraços apertados demoravam, acompanhados de palavras de conforto e lágrimas. Muitos sequer a conheciam antes daquele dia. Eu mesma sabia bem pouco. Mas o coração de qualquer um que almeja justiça e igualdade é capaz de sentir o frio quando um candeeiro de luz se apaga.

  


Porém, hoje, um mês depois, percebo que, na verdade, Marielle se dividiu em milhões e, agora, cresce em cada um e cada uma de nós. Floresce para cima, enraíza para baixo. Ironicamente, ao tentarem calá-la e interromperem sua luta, ecoaram sua voz e nos deram o combustível necessário para continuar. Marielle renasceu. Em um vídeo muito especial feito com a Jout Jout (link lá embaixo), Talíria Petrone - vereadora mais bem votada em Niterói, amiga pessoal de Marielle, também ativista e mulher incrível - disse algo muito poderoso e real:

Eu acho que a (morte da) Mari moveu as estruturas. Preferíamos a Mari aqui e sem estruturas movidas, mas, ela não está aqui e, ao mesmo tempo está e as estruturas se moveram. O que a gente faz com isso? Acho que a gente tem que ganhar essa parada! É o momento de gritar...

Em mim, particularmente, a morte dessa mulher tão forte e tão FODA foi um despertador que toca todos os dias desde então. Ele me diz "se fizeram isso com ela, uma pessoa pública, quais as chances das suas iguais que nunca terão oportunidade de voz? Que nunca chegarão aos bancos universitários? O que você vai fazer com o seu privilégio? Use-o!". E juro que todos os dias tenho pensado em como utilizá-lo em defesa dos meus ideais, os mesmo que eram os dela. Por agora, só posso agradecer Marielle por ter lutado tanto por um mundo melhor em vida e por estar semeando este mundo em morte. Não deixaremos que seja em vão.



30 dias. Não podemos nos calar.
Quem matou Marielle? Quem mandou matar?
Amanhecemos por Marielle... 
Semente. Presente!


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(Obs.: não achei de jeito nenhum o/a ilustrador/a que fez a arte que abre esse texto. Se alguém souber, por favor, me diga para que eu possa dar os créditos devidamente <3.)


Um comentário

  1. Belo texto, Ana! Importante reflexão. Está havendo no Brasil um retrocesso civilizatório e moral. Então, é preciso que vozes emerjam contra isso. É preciso resistência!

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